ARMÊNIA 2010
21/2/2010
O prestigioso semanário britânico The Economist, na sua edição de 19/2, publicou um simples mas interessante artigo sobre a questão armeno-turca cuja tradução damos a seguir:
O ACORDO TURCO-ARMÊNIO ESTARIA SE DESFAZENDO? AS RELAÇÕES ENTRE OS DOIS PAÍSES ESTARIAM SE ESFRIANDO DE NOVO?
Quando o governo turco assinou um acordo com a Armênia, em outubro passado, tudo indicava tratar-se de um sucesso na sua política de “problemática zero” com seus vizinhos. Os tradicionais inimigos concordavam, afinal, em abrir sua fronteira comum, a qual havia sido fechada pela Turquia em 1993 em solidariedade com o Azerbaijão, durante a sangrenta guerra com a Armênia na disputa do Karabagh, enclave de maioria armênia. O acordo assinado permitia esperar que os fantasmas do passado também seriam enterrados com a formação de um comitê conjunto de historiadores que investigariam a questão do extermínio em massa dos armênios em 1915.
Ocorre, porém, que antigas animosidades são difíceis de se apagarem. No dia seguinte à assinatura do acordo mencionado, o primeiro-ministro turco Recep Tayip Erdogan declarava que o mesmo só seria ratificado se a Armênia se retirasse do Karabagh, ocupado desde a guerra. Isso apesar de que o acordo em questão nem sequer faz menção daquela guerra!
Eis que agora a Turquia cria um novo obstáculo. A Corte Constitucional Armênia, ao aprovar recentemente o acordo de outubro passado, afirmara que o mesmo satisfazia os princípios fundamentais do Estado armênio, os quais pressupõem a política do reconhecimento universal da tragédia de 1915 como genocídio. Prevendo o risco de que essa pressuposição seja implementada, Ancara exige que a afirmação da Corte seja reconsiderada. Muitos acham que, pressionado pelos radicais nacionalistas turcos, de um lado, e por um Azerbaijão irritado, de outro, o governo de Ancara esteja simplesmente se servindo da decisão da Corte Constitucional Armênia como pretexto para justificar suas próprias hesitações quanto ao acordo turco-armênio. Entrementes, a Armênia acaba de enviar esse acordo ao seu Parlamento para ratificação.
A Turquia parece isolada. Seu principal aliado, os EUA (e o intermediário mais interessado nas negociações) parece ter tomado posição a favor da Armênia. Quanto à Rússia, ela insiste em que o acordo turco-armênio não deve depender do problema do Karabagh, no que os EUA concordam.
É sabido que, paradoxalmente, esse mesmo acordo não goza do apoio unânime dos armênios. Ao formular sua decisão, a Corte Constitucional Armênia deve ter pensando em aplacar os intransigentes nacionalistas armênios, indignados pelo que consideram a implícita aceitação do traçado da fronteira com a Turquia (eles reivindicam que partes da Turquia oriental constituem “terras históricas” armênias). O presidente Serge Sarkissian teve de vir de novo a público para declarar que a ratificação do acordo turco-armênio ficará em suspenso até que o parlamento turco vote a seu favor.
Os EUA acompanham atentos. Se o acordo fracassar, o Congresso se sentirá livre para aprovar a resolução que reconhece as matanças de 1915 como genocídio, medida há muito brandida como ameaça. Por sua vez, isso pode desencadear novos sentimentos anti-norteamericanos na Turquia que podem chegar a exigir que o governo imponha a retirada das forças norteamericanas da estratégica base aérea de Incirlik.
Em contrapartida, há sinais animadores de que o povo comum turco e armênio esteja ignorando tais tomadas de posição de seus líderes e que esteja mais interessado em construir relacionamentos amistosos por conta própria. Exemplos: o canal privado turco SuTV iniciou há pouco um novo programa em idioma armênio, e o comércio entre os dois países, via a Geórgia, cresce a olhos vistos, apesar da fronteira fechada.
(Trad. por Aharon Sapsezian)
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