Achot, "Príncipe dos Príncipes" (885 d.C.)
A Armênia
estava em ruínas, mas como renascera por tantas outras vezes, ela reuniu
forças suficientes diante de sua desgraça, para ressurgir do pó.
Achot Bragatuni foi o principal responsável pelo reflorescer da Armênia. Agindo
habilmente, conseguiu despertar no Califa novos olhares sobre a Armênia. Reconstruindo
o que destruíra, o Califa nomeia-o Príncipe Achot Bragatuni o "Príncipe dos Príncipes",
governador e finalmente Rei da Armênia; isso já em 885, iniciando assim, a dinastia
do Bragatidas.
Basílio I, o imperador bizantino neste momento, reproduz o gesto do Califa e também
o coroa.
Achot, agora com duas coroas, se mostra muito sutil e inteligente, mantendo nesta
situação delicada um bom relacionamento com Bizâncio e o Califa durante 5 anos.
Com sua morte, seu filho Sembat, herda as duas coroas e, cheio de entusiasmo estende
suas fronteiras do lado dos íberos e albanos. Mas é detido pelo emir Árabe do Azerbaijão
(iraniano), onde confronta-se durante todo seu reinado. No decorrer de campanhas
vitoriosas, Sembat defronta-se com a traição de alguns nobres armênios, senhores
de pequenos principados preocupados apenas com sua autonomia; dos quais, um dos
principados eram dos Artzruni (príncipes de Vaspurakan, cuja preferência sempre
fora para os Árabes).
Sembat é aprisionado pelo emir Iussuf do Azerbaijão e, logo em seguida executado;
assim, um Artzruni recebe a coroa. Reconquistada pelo filho de Sembat, Achot II
- "lergat", o rei de ferro - derrotando os árabes.
Abas I, seu irmão e sucessor estabelece a paz com o Azerbaijão, lutando apenas com
os afcazes, vizinhos das margens do Mar Negro; onde alcança grande vitória e manda
furar os olhos do rei inimigo.
A capital da Armênia passa a ser Ani, por vontade de Achot III; começa a idade de
ouro. Ani, situada à margem do rio Arta-techat, no vale das flores, é a cidade de
40 portas, 100 palácios e 1000 igrejas, o "bulevar da civilização ocidental e cristã
em face da Ásia".
"Essa cidade, cujas ruínas percorremos hoje, não sem pungente emoção, não foi obra
apenas de um soberanos, mas sim de todos os bragatidas que se comprazeram no embelezamento
de sua capital e de todos os armênios que doaram à cidade abundantemente, Ani que
personificava a Armênia por tanto tempo perturbada. As antigas gerações viram Artaxata,
Tigranocerta, Dvin e uma multidão de cidades armênias florescentes. Mas, uma após
a outra, essas capitais desapareceram ou caíram sob domínio estrangeiro. Elevando
Ani à categoria de metrópole, os bragatidas dotavam o povo armênio de um lar, de
uma sede que então se pensava ser eterna. Ani tornou-se o coração da Armênia". (Jacques
de Morgan, Histoire du peuple arménien, paris, 1919) A mais bela das cidades, consagrada
como capital em 952, sucumbindo em ruínas. Ani é arruinada,
assim como a dinastia
dos bragratidas. Isso ocorreu em 1064, com a mais terrível invasão sofrida pelos
armênios até então, os turanianos são responsáveis por toda essa devastação.
Três grandes causas contribuíram para a queda dos bragatidas: a destruição de Ani,
a sedimentação da Armênia, os ataques bizantinos e a derradeira invasão turaniana.
Achot III, no séc. X havia cedido a província de Kars a seu irmão Gaghik I, que
cria um pequeno reino da Armênia do Sul. Com sua morte, seus dois filhos disputam
o domínio das terras, o mais novo toma o norte dos estados e funda o reino de Lori.
No séc. XI, a Armênia se encontra dividida em 4 reinos: Ani, Kars, Lori e Vaspurakan
(feudo dos Artzruni). Fica evidente a fragilidade da Amênia nesse momento, dividida
desta forma e, com a ameaça das hordas turanianas pairando no ar* .
Os turcos seldjúcidas invadem a Armênia desde o início do séc. XI, onde sempre foram
batidos pela dinastia bragatida, principalmente em 1021, debaixo dos muros de Ani.
Entretanto, as coisas não seguiam o mesmo rumo no pequeno reino de Vaspurakan. Mesmo
resistindo a vários ataques turcos, a derrota era uma questão de tempo. Diante da
situação, o rei de Vaspurakan conclui um tratado com Basílio II, imperador bizantino.
De acordo com o tratado o reino seria cedido em troca da cidade e da região de Sivas;
cerca de 40.000 súditos seguiram o rei. Esse acontecimento enfraqueceu sensivelmente
a Armênia, contribuindo para sua queda.
O perigo rondava todos os cantos da Armênia e, para complicar ainda mais a situação,
numa atitude incompreensível, o imperador bizantino não estendeu a mão a seus vizinhos
armênios.
O ataque bizantino ocorre com a notícia da morte de Sembat II. O imperador bizantino
pretendia impôr, em detrimento do sucessor de Sembat (seu sobrinho Gaghik II), seu
escolhido Vest Sarkis. Diante da postura negativa dos armênios, Basílio II lança
três expedições contra a Armênia; só conheceu a derrota. Tendo sua honra arranhada,
o imperador reúne todas as suas forças, alia-se ao rei dos albanos e investe outra
vez contra os armênios. E outra vez seu destino é a derrota, seus exércitos foram
esmagados diante de Ani; o General Vahran Pahlavani deixa 20.000 bizantinos sobre
o campo de batalha**.
Após se livrarem, temporariamente, dos gregos e albanos, os armênios, comandados
pelo general e governados pelo rei Gaghik, voltam-se contra os turcos; impondo-lhes
uma derrota avassaladora às margens do Goktchai.
Mal os armênios respiram dessa árdua batalha, os bizantinos, agora aliados aos árabes,
iniciam uma nova estocada; novamente foram derrotados.
Bizâncio não encontrou a vitória através do caminho das armas, da bravura e da dignidade.
Encontrou a vitória pela armadilha, pela traição. O imperador Bizâncio, assistido
pelo traidor Vest Sarkis - o mesmo que ele tentava colocar no trono de Gaghik II
- convidou o rei Gaghik a vir até Bizâncio assinar um tratado de paz perpétua. O
rei armênio aceitou e seguiu viagem, deixando o reino aos cuidados de Katholikós
Petros.
Quando chegou a Bizâncio foi capturado e preso; neste instante um exército se dirige
para Armênia. Ani foi entregue aos gregos sem resistência, uma vergonhosa e torpe
atitude traidora de Katholikós Petros. O povo desamparado com a prisão de Gaghik
e, indignado diante de seu pastor espiritual, submete-se a Bizâncio em 1045.
Aqui a gloriosa dinastia dos bragatidas encontra seu fim; dinastia que não viu derrotas
pelas armas, nem falta de bravura, enfrentou gregos, albanos, turcos e árabes e
os venceu; mas sucumbiu diante da duplicidade de seus inimigos e infelizmente da
traição de alguns súditos.
Os bizantinos ocupam a Armênia, mas não conseguem defendê-la. Com seu rei e generais
os armênios conseguiam repelir os turanianos. A falta de organização causada pela
invasão grega, desestabiliza a resistência, agora já esporádica. Após 3 anos da
queda de Gaghik, os turcos acampam na Armênia, devastando tudo o que encontram pela
frente, as maiores barbaridades são cometidas. Apesar do quadro, Ani e a Armênia
caem após 16 anos de batalhas atrozes (1064). O massacre é selvagem, o sangue banhou
praças e ruas, foram milhares de mortos pela espada e, aqueles que se refugiaram
nas igrejas, morreram soterrados e carbonizados debaixo das ruínas dos prédios incendiados.
Kars também fora destruída pelos turcos; somente Lori, pela posição geográfica privilegiada,
subsistiu por mais de um séc.; no entanto, a Grande Armênia já não existia, pelo
contrário, continuou sendo invadida e sofrendo com as barbaridades dos turanianos
(turcos seldjúcidas, mongóis de Genghis-Cã e de Tamerlão, turcomanos e, já no séc.
XVI, os turcos otomanos).
Bizâncio pagou caro pela vaidade; derrotados os grandes guerreiros armênios, os
turcos investem sobre toda Ásia Menor, tomando a província mais rica do império
grego, antes de aniquilá-lo.
* Os turanianos eram um povo amarelo originário da Ásia Central (Turquestão e Mongólia).
Mais devido à direção de seus ataques do que por suas particularidades étnicas,
foram divididos em mongóis, que chegaram à Europa mas se voltaram sobretudo contra
a China, em tártaros, que se lançaram contra a Rússia atual, e em turcos, que ocuparam
o Oriente Médio.
** Basílio II: conhecido como "açougueiro dos búlgaros", era de origem armênia.