Genocídio (1915)
Os turcos, oportunistas, mais uma vez se aproveitam das circunstâncias e da imobilidade
das grandes potências. Abrem suas fronteiras aos curdos nômades, inclusive fornecendo-lhes
armamentos; desse momento até 1914, 100.000 curdos instalam-se nas regiões de Much, Van e Erzerum.
Trazendo naturalmente, pilhagens, violências e expropriações, derramando
sangue e temor entre os armênios; obrigados a alojar os curdos no inverno e a pagar
impostos mais altos que dos próprios turcos.
Rapidamente a resistência é organizada e, agora já armados, os armênios eclodem
revoltas nas regiões onde em outros tempos, habitavam os mais enérgicos armênios
da Turquia - Zeitum, Sassum e Van.
Esses agrupamentos de resistência resultaram em partidos políticos: o mais antigo
deles é o Armenakans, de Van; em Genebra (1889), o partido Hintchak e; dentro da
própria Turquia, em Tíflis (1890), o partido Tachnak.
Em Sassun, no ano de 1894, os guerreiros montanheses, esmagam as hordas curdas.
Os turcos sob o pretexto dos armênios se negarem a pagar o imposto aos curdos e,
devido à revolta, invadem a cidade massacrando aqueles que deveriam receber sua
proteção.
Neste instante, as grandes potências ficam apreensivas diante do ocorrido. Embaixadores
da França e Inglaterra protestam energicamente, apresentando a Abdul Hamid um projeto
mais definido e prático. No entanto, o Sultão, apoiado pelo ministro russo dos Negócios
Estrangeiros, Lobanov, arredio aos armênios, respondeu com cortesia mas vagamente.
Nada vago ou inconsistente, foi o projeto escuso elaborado pelo Sultão turco, tendo
como finalidade o extermínio dos armênios. Orientado pelos búlgaros, o Sultão preparou
meticulosamente seu plano; passo a passo foi cercando as províncias armênias e aguardando a hora do bote. Preocupado com a reação dos europeus, primeiro isolou as províncias
do mundo exterior, interditou as viagens e qualquer comunicação postal; quando se
sentiu seguro em relação à reprovação européia, lançou falsas acusações sobre os
armênios, afirmou estarem organizando uma grande conjuração contra a Turquia e o
Islã. Armas foram distribuídas a turcos fanáticos e aos curdos, sedentos por sangue,
matam, estupram, pilham, eram chamados os "bachibozuks".
O massacre inicia-se em setembro de 1895 e estende-se por toda Anatólia Oriental.
Epsódios atrozes ocorreram: em Urfa, na semana do Natal, 3.000 armênios são queimados
vivos enquanto buscavam o refúgio.
O Sultão Vermelho não levou em conta um fato histórico, algumas resistências armênias,
apesar de diversas dificuldades por que passaram, nunca foram derrotadas. Não foi
desta vez que o destino levou esses bravos guerreiros a sentir o sabor amargo da
derrota. Os objetivos turcos foram barrados: em Van, onde os partidos estavam unidos
(Armenakan, Hintchak e Tachnak) e; em Zeitum, os habitantes tomam posse da cidade
e não a perdem mais. A resistência chama a atenção das grandes potências que intervem
no conflito. São os ingleses em primeiro lugar, que pressionam os turcos exigindo
explicações. A Turquia responde ironicamente, endagando estar apenas reprimindo
a revolta armênia.
Indignados com o pouco caso dos turcos, os ingleses encontram-se dispostos a repelir
essa falsa versão; porém, os russos e os alemães - Bismarck
e Lobanov - expressam
satisfaçam com a atitude turca. O primeiro ministro inglês, Lorde Salisbury, não
ousou agir isoladamente. Reiniciam-se os massacres em 1896, paralisados com a manifestação
inglesa em dezembro de 1895.
Diante da situação, os Tachnak tentam sensibilizar a opnião mundial. No dia 26 de
agosto de 1896, 26 homens, liderados por Babken Suini e Armen Garo, invadem o Banco
Otomano em Constantinopla. Tratava-se do primeiro banco, o primeiro estabelecimento
financeiro do Oriente.
As grandes potências agora sentem-se encomodadas realmente, muito mais que perante
o barbarismo turco. Os embaixadores orientais tentam contornar a situação solicitando
o retorno dos armênios, prometendo-lhes o cumprimento das reformas. Enquanto isso, 7.000 armênios eram assassinados pelos turcos enfurecidos de Constantinopla.
Todas essas vítimas e o Banco Otomano em poder dos armênios, evidencia a anarquia,
a falta de controle do poder central para governar o país. Era clara a insatisfação
das grandes potências para com o Império Otomano, apoiado pelas mesmas. A Rússia
sempre interessada nos Estreitos, prepara a guerra Balcânica. Manifestações públicas
foram organizadas em Paris, Londres, Bruxelas, Roma, Viena; a indignação dos europeus
era notória. Gladstone na Inglaterra (incansável defensor da causa armênia), Dents
Cochin, Millerand, Jean Jaurés, Mun, Georges Clemenceau, na França; Brouckére, na
Bélgica; Kerinskina, Rússia; Georges Brandés, Meyerbenedictsen, Fridtjof Nansen,
na Escandinávia; todos homens generosos que ergueram a bandeira armênia em pró de
sua causa. Suas ações não foram,
infelizmente, eficientes na prática, mas mostraram
a dimensão do massacre: 100.000 foram assassinados, 50.000 morreram de fome ou frio,
100.000 fugiram para Transcaucásia (nos Balcãs), 40.000 submeteram-se pela força à conversão; resultado da devastação de 2.500 aldeias. De uma maneira ou de outra,
400.000 armênios desapareceram da Turquia.
Na Armênia a história foi diferente, a resistência estava muito bem organizada;
neste momento intensifica-se a nação dos fedais, liderados por Nikol, Siuni, Murad,
Serop e Antranik, o grande herói armênio moderno. Resistência interna era impossível;
organizaram-se, então, em países limítrofes como a Pérsia e Transcaucásia, donde
partiram expedições na direção da Turquia. A incursão de Khanassor inicia-se em
1897, liderados pelos tachnak, os armênios caminham da Pérsia até a Turquia; esmagam,
aniquilam toda a tribo curda Masrig (foram responsáveis pela morte de 800 armênios),
em 1899 o combate do mosteiro Arakelotz. Antranik passa a ser o grande líder armênio
em 1901. Já em 1904, os armênios chegam a Sassum, onde Antranik e sua tropa de elite
colocam em cheque 13 batalhões turcos e mais alguns milhares de curdos.
A dificuldade dos armênios estava em segmentar sua forças em duas frentes de batalha.
Os russos, sorrateiramente, fazem uma política dupla, hora alimentando um lado hora
outro.
No ano seguinte, o vice-rei da Transcaucásia - Príncipe Galitzin - fornece armas
aos tártaros do Azerbaijão e estimula-os contra os armênios, atacando-os primeiro
em Bacu, depois por toda extensão da Transcaucásia. Mas no instante em que os armênios
estão sobrepondo-se a todas as adversidades, as tropas russas saem de sua passividade.
Lutam apenas por seus interesses. 1905, os combates são paralisados, aí as duas
comunidades desmascaram o jogo duplo dos russos, que jogava um contra o outro. O
Príncipe Galitzim é chamado.
Todas essas questões e a tirania do Sultão, excita os próprios "jovens turcos",
imbuídos de novas idéias. Provocando uma emigração política, onde surge um movimento
liberal em Paris, dirigidos por homens como Ahmed Riza bei e o Príncipe Sabaedin.
Movimento que resultou na criação do partido Joven-turco, com o comitê de ação "União
e Progresso".
Durante julho de 1908, o exército turco da macedônia - adeptos aos "jovem-turcos"-
efetivam um Golpe de Estado, que obriga o Sultão a aplicar a constituição Natimorta
de 1876. Os exilados retornam e assumem o governo. Culminando num grande estado
de alegria e fraternidade.
Alegria muito curta;
pois, afinal, um liberal no poder é tão conservador quanto
um ditador. As idéias inovadoras do Comitê "União e Progresso", não saem da teoria
e,
pelo contrário, são substituídos por uma postura autoritária.
Agora quem está na oposição é o Sultão, pressionando o novo governo, cobrando seu
retorno ao poder. Instigou o povo muçulmano com o boato da extinção da legislação
"cherie". Abril de 1909, o Sultão reconquista o poder; a multidão insatisfeita revolta-se
contra o comitê em Constantinopla, eles refugiam-se em Salonica.
O Sultão está de volta, mas a ordem não, os fanáticos muçulmanos não param por aí;
perturbações ocorridas em Adana levam o massacre de cristãos à toda Cilícia, dos
quais 25.000 armênios.
O terceiro corpo do exército turco, indignado, marcha sobre Constantinopla; depõe
o Sultão e em seu lugar, está seu irmão, Títere, completamente submetido ao Comitê
"União e Progresso". Infelizmente, os "jovem-turcos" reincidiram no erro, reestabelecendo
praticamente a mesma política que os depusera anteriormente. A tentativa de impôr
a cultura, a religião turca em todo império, causou grandes revoltas entre os russos
da Síria, os árabes da Palestina e do Iraque em 1910, no Iêmen em 1911 e, na Macedônia
em 1912. Em seguida estoura a primeira guerra balcânica; a Turquia perde a Trácia
Ocidental e a Macedônia. Chegando ao ponto dos armênios, que acreditavam no governo
dos "jovem-turcos", requisitarem o auxílio das grandes potências. Desta vez, o próprio
chefe supremo armênio fez este contato, o Katholikós de Etchmiadzin, Kevork V Surenian
- organizando uma delegação
nacional armênia, confiando a presidencia a Boghos Nubar
(filho de um ilustre estadista egípcio de origem armênia), encarregado de solicitar às grandes potências a aplicação do artigo 61, do Tratado de Berlim.
Enquanto Boghos Nubar estava na França, Paris, Dr. João Zavrian, membro da delegação,
negociava em São Petersburgo; em Tíflis, era criada a "Secretaria Nacional" e, se
instalava em Constantinopla uma "Comissão de Segurança", nomeada pelo Conselho Representativo
Nacional, originário da Constituição Nacional Armênia de 1863.
Todos esses orgãos visavam sensibilizar as 3 grandes potências - França, Inglaterra
e Rússia - a agirem rapidamente, colocando finalmente o Tratado de berlim, com suas
reformas, em prática.
Em 26 de janeiro de 1914, foi assinado um protocolo entre o Grão-Vizir Savid Halim
e Kulguevitch, encarregado russo de negócios.
Nesse documento se prevê que as províncias armênias, os sete vilaietes orientais,
dividiriam-se em dois setores (Norte: Erzerum, Sivas, Trebizonda e; Sul: Van, Bitlis,
Diarbekir, Krarput) Cada divisão receberia um inspetor-geral europeu, dotado de
extensos poderes e controlaria a implantação das reformas previstas a tanto tempo.
São nomeados, um norueguês e um holandês para os postos (julho de 1914), parecia
o início de uma nova era para os armênios da Anatólia.
Mas a 31 de outubro de 1914, o protocolo é rompido e os inspetores são expulsos;
a Turquia entra em guerra.
Como os armênios deveriam se comportar, qual seria a melhor atitude?
O partido Tachnak realiza uma assembléia geral em Erzerum, para discutir o rumo
a ser tomado, a postura a ser adotada diante da eminente guerra. Decidiram que os
armênios deveriam manter-se leais aos países que habitavam, mas tentariam persuadir a Turquia a não tomar parte na guerra. Porém, a situação era delicada, pois haveriam
armênios dos dois lados do campo de batalha; assim, um comitê com 7 homens são designados
para tentar resolver os possíveis conflitos.
Prestes a terminar a assembléia, chegam a Erzerum dois plenipotenciários do partido
jovem-turco, Behaeddin Chakir e Nadji bei, junto de agentes georgianos e azerbaijianos.
Vem propôr aos Tachnak uma aliança, organizando-se para investir contra os russos
na Transcaucásia. Os turcos propuseram aos armênios a criação de uma Armênia autônoma,
com territórios dos dois lados da fronteira, sob o controle turco (um antigo projeto
alemão). Foi rejeitado.
Ficou subentendido, os turcos irritados iriam reprimir os armênios da Armênia-turca
e, eles tinham consciência da repercussão de sua postura. O tempo era muito precioso,
a sobrevivência deles estava nas mãos de Deus. Quanto mais rápido os russos derrotassem
os turcos, mais garantias de sobrevivência se teria. Armen Garo Pasdermadjian leva
o resultado da negociação com os turcos até o Departamento Nacional de Tíflis. A
Secretaria Nacional imediatamente inicia o recrutamento de uma legião de voluntários,
para combaterem ao lado dos russos; essa já contavam com 180.000 armênios. Em outubro
de 1914 estavam preparados; seriam liderados pelos chefes da resistência: Antranik,
Keri, Tro, Hamazasp e Khetcho.
A represália era aguardada. Na legião já se contava 5.000, depois 8.000 voluntários;
os próprios russos brecam o recrutamento.
O turcos reagem a 24 de abril de 1915, 600 armênios (da elite de Constantinopla)
são presos. Surge então um novo plano de extermínio: "Documento encontrado em Alepo
após a derrota turca em 1918. A Prefeitura de Alepo: Foi precedentemente comunicado
que o governo decidiu exterminar inteiramente os armênios que habitam na Turquia.
Os que se opuserem a essa ordem não poderão mais fazer parte da administração. Sem
consideração para com as mulheres, crianças e enfermos, por mais trágicos que possam
ser os meios de extermínio, sem ouvir os sentimentos da consciência, imposta por
fim à sua existência. 13 de setembro de 1915. O Ministro do Interior: Tallat." (Documento
citado por H. Pasdermadjian,
Histoire de L'Arménie)
Uma verdadeira avalanche contra os armênios, soldados turcos, curdos, salteadores,
não respeitam nada e ninguém. O plano realmente foi eficaz, cerca de 1.500.000 de
armênios pereceram de 1915 à 1918 dos 2.100.000 que estavam no Império Otomano.
Como sempre, nos massacres, a resistência se mantêm em pé (Zeitum, Sassum e em Van).
Um dos mais belos feitos históricos e militares. Na montanha costeira de Mussa-Dagh,
4.000 armênios resistiram durante 40 dias frente ao exército turco, quando chegam
navios de guerra franceses e os resgata, levando-os até Chipre e para o Egito.
A palavra genocídio pôde ser tristemente utilizada, a partir desses longos e negros
anos de muito sofrimento.