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Armênia Turca e Russa (século XIII a XIX)


Durante o séc. XIII, as hordas mongóis de Gengis-Cã que constituíram o "império da desolação", passaram por essa terra sofrida. Em meados do séc. XV, é Tamerlão que traz terror à região; desta vez, sob novo comando, a voracidade mongoliana é algo imensurável. Tamerlão manda enterrar vivos 4.000 guerreiros armênios, capturados em Sivas e, esmaga sob as ferraduras dos cavalos as crianças da cidade. Paradoxalmente, os aliados mongóis na Cilícia, são terríveis adversários na Grande Armênia.

Os turcomanos conquistam a Armênia, seu rei Kara Iussuf derrota os mongóis e, logo em seguida, proclama Iscandar (seu irmão) soberano. Chamado Xá I Armen, Iscandar põe-se a enfrentar Chauik, o filho de Tamerlão; como sempre a maior prejudicada é a Armênia, seus territórios são mais uma vez, palco de grandes batalhas e grande devastação, os bárbaros destroem tudo o que encontram pela frente.

Dois grandes acontecimentos assolam a Armênia após a vitória turcomana. Constantinopla é conquistada pelos turcomanos em 1453, aumentando ainda mais o desespero dos armênios, pois, estão agora completamente isolados e cercados, perdiam também a esperança de uma intervenção, um auxílio vindo dos amigos europeus.

Após muitos séculos de submissão, os persas, também sob domínio da invasão turaniana, conseguem lograr a expulsão dos ocupantes em 1472, retomando seu lugar ativo no cenário ocidental. Entretanto, os armênios, aguardando se beneficiarem deste fato, são surpreendidos.

Xá Abbas I (séc. XVII), rei da Pérsia, conquistou a província armênia de Ararat; mas não suporta a resposta turca. Ele é perseguido e expulso; uma infeliz atitude, os persas em sua retirada, devastam toda a província utilizando a tática denominada terra queimada e mais, arrastam consigo 50.000 armênios que ali habitavam. Aqueles que não suportaram o êxodo forçado, foram aniquilados durante o percurso à Pérsia. Simplesmente a metade alcançou com vida o objetivo persa. O rei persa instala os sobreviventes nas proximidades de Ispaã e, astuciosamente, trata-os com muita consideração, afinal poderia tirar muito proveito de seu trabalho.

Neste local eles fundam a cidade Nova Djulfa, obtendo prosperidade junto a paz encontrada.

A guerra entre persas e turcos permaneceu até 1620, quando foi assinado o primeiro tratado de paz; na qual os turcos abriam mão da província armênia de Karabagh. "Enquanto o resto da nação era submetida à dominação estrangeira com todas as conseqüências da servidão, os armênios do Karabagh, que se governavam a si próprios, puderam preservar, mais puras e mais completas, as antigas qualidades da raça, principalmente suas tradições guerreiras, sua energia e seu espírito empreendedor" (H. Pasdermadjian, Histoire de L'armenie, Paris, l949)

Ou seja, na realidade, os turcos não fizeram uma grande concessão, nem os persas uma grande aquisição; afinal, nunca ninguém havia conseguido submeter os guerreiros armênios do Karabagh. Sabiamente, os persas não procuraram administrar diretamente essa população arredia e, conservaram sua autonomia nos 5 principados de Karabagh: Gulistan, Djraberd, Khatchen, Varanda e Tizak; comandados por seus senhores, institulados Melique.

Em 1639, há um novo tratado, onde toda a parte oriental da Armênia passa para mãos persas que, impõe a essa região uma administração tão corrompida e dura como a dos turcos.

A esperança de reconquistar a independência nunca deixou de existir entre os armênios. Mas era claro que diante de tantas invasões e fragmentações da Armênia, pelas armas, neste momento seria impossível reconquistá-la. Partiu-se então, para uma solução diplomática. Como o império bizantino havia desaparecido, restavam outras opções: a Europa Antiga ou um novo Estado Cristão, a Rússia.

No séc. XVI, os Katholikós haviam feito alguns contatos neste sentido, porém sem obter sucesso. É no séc. XVII que está situada a extraordinária aventura de Israel Ori.

O Katholikós, Hagop IV parte de Etchmiadzin rumo à Roma, com a intenção de sensibilizar o Papa e solicitar uma intervenção das potências Cristãs da Europa junto à sua irmã Armênia. Oferecia-lhe em troca, a obediência da Igreja Armênia à Romana. No entanto, infelizmente, o Katholilós não chegou à Roma, faleceu em Constantinopla; sua delegação retorna, com a exceção de um membro, Israel Ori.

Israel era filho de um dos 5 Meliques de Karabagh; estando num momento de sua vida onde a aventura o esperava. Com apenas 19 anos chega à França e engaja-se aos exércitos do rei. Em combate com os ingleses é feito prisioneiro. Depois de solto, dirige-se para Alemanha e à presença do príncipe eleitor do Palatinado; no qual, oferece a coroa da Armênia, caso conquistasse sua liberdade.

O príncipe espantado com a proposta do jovem Israel, manda-o de volta à sua terra, para confirmar a proposta e verificar as forças que poderia dispor. Dito e feito, Israel chega a Armênia e toma conhecimento de que o novo Katholikós não aceita a subordinação à Roma. Mesmo assim, com o apoio dos Meliques, vai à Alemanha.

Reencontra o príncipe eleitor que o recomenda a falar com o Imperador Leopoldo I da Alemanha. Foi recebido pelo imperador e falou-lhe; mas sem o apoio russo não havia o que fazer.

Israel pega a estrada agora rumo a São Petersburgo; onde chega em 1700, apresentando-se a Pedro, o Grande.

Demonstrando muito interesse nas idéias de Israel, o Tzar promete enviar uma expedição russa para combater os turcos e persas. Infelizmente, a Rússia já estava imbuída em outro conflito, contra os suecos. Apenas em 1722, o exército russo chega à Armênia e lança um ataque aos persas, passam ao longo do Cáspio, mas brecam diante de Chama Kni. Enquanto isto, armênios e georgianos enfrentam os turcos.

Pedro, o Grande, com sérios problemas na Europa e, percebendo a força de seus adversários, na qual não esperava encontrar, desiste da liberdade armênia e assina um tratado com a Pérsia.

Apesar da desistência russa, os armênios do Karabagh conseguiram tirar proveito da situação e, conquistaram uma independência completa de 1722 a 1730. Um vigoroso ataque turco derrota os armênios. A resistência se organiza e alcança vitórias históricas; lideradas pelo herói nacional David Beg que, com apenas 5.000 homens em lutas heróicas, derrota diversas vezes os turcos, sucumbindo posteriormente diante do número muito superior por parte dos adversários, Karabagh é ocupada. Novo conflito entre persas e turcos mantêm viva esta província. Os persas reconquistam-na e, após alguns anos, devolve sua autonomia.

A interminável disputa pela dominação da Armênia não cessa. Uma nova esperança surge para os armênios, os russo aparecem no ponto mais alto do Cáucaso, restabelecendo o contato com os irmãos cristãos europeus, quebrado desde a tomada de Constantinopla pelos turcos. Passados longos anos na escuridão, os russos traziam uma luz ao povo armênio que, já sonhava com um novo rumo em sua história.

Os russos enfrentam primeiro os persas conquistando a Geórgia. Lançaram-se vorazmente contra os velhos inimigos, os turcos - já estavam em combate, de longa data, na Ucrânia e Criméia.

Travaram acirradas guerras (4) e, com o auxílio decisivo dos armênios, derrotam definitivamente os persas, anexando a Geórgia, o Karabagh, Yerevan e Nakhitchevan, praticamente os territórios da Armênia-Soviética. Tudo inserido no Tratado de Turcmentchai em 1828. Nesses tratado, constava o direito aos armênios que habitavam a Pérsia, a migrarem até as províncias sob domínio russo - 30.000 armênios.

Contra os turcos eles conseguiram vitórias significativas; ocuparam grande parte da Armênia-Turca, como Erzerum, o Kars e Ardahan. Entretanto, devido a insistência por parte dos ingleses, em obter o domínio da Turquia, mediante a paz de Andrinopla, restituída em 1829, os russos devolvem os territórios conquistados, com exceção de uma pequena faixa territorial que se manteve anexada às províncias armênias. Como no Tratado Turcmentchai, o tratado de Andrinopla dava abertura aos armênios de migrarem para as províncias sob domínio russo; mais 100.000 armênios tomaram esse rumo.

Essas guerras russo-turcas continuaram e, em 1878, com a vitória do General armeno-russo Loris Melikian, a Rússia (com os tratados de Santo Estéfano de Berlim) toma posse de Kars e Ardahan.

Boa parte da nação armênia já se vê livre do domínio muçulmano, criando agora uma grande expectativa em receber certa autonomia dos russos; afinal desde 1829, os armênios ajudaram grandiosamente os russos a alcançarem as vitórias. Estavam todos enganados; o Tzar julgou ter alcançado suas metas no momento em que criou novas províncias, a Armenskaya Oblast (o território armênio), implantando-lhe outro sistema administrativo.

Neste momento, os armênios estão eufóricos extendem suas fronteiras até o Tíflis, até o litoral do Mar Negro e até o Cáspio.

Mas esse estado não durou muito. Os russos libertaram os armênios da submissão persa e turca; no entanto, substituíram aquele jugo brutal por outro mais sutil, delicado e centralizado privando-os implacavelmente, burlando completamente sua liberdade supostamente alcançada. A ponto de intrometer-se nas questões religiosas, ousando confiscar os bens da Igreja em 1903. Uma tentativa de russificar o povo armênio; fecharam escolas, associações culturais, sociedades beneficentes, bibliotecas etc.

A "Questão Armênia" aparece diplomaticamente com os tratados de Santo Estéfano e de Berlim, onde ocorre o fim da guerra russo-turca em 1877-78; mas ela já havia sido colocada desde as invasões turanianas por escritores como Raffi, Abovian, Ardsruni instruindo o povo europeu sobre a miséria e o sofrimento armênio.

Em 1878 os russos derrotaram os turcos e libertaram a Bulgária e a Sérvia cedendo-lhes a independência; algo que não estava nos planos russos era a independência ou a autonomia armênia. Traçando-lhes outro rumo.

No Tratado de Estéfano confirma-se a independência búlgara; Batum, Ardahan, Kars e Bayazid são cedidos à Russia e, as tropas russas apenas evacuariam Erzerum após as reformas previstas no artigo 16: "com a evacuação, pelas tropas russas, dos territórios que ocupam na Armênia e que devem ser restituídos à Turquia poderia acarretar conflitos e complicações prejudiciais às boas relações entre os dois países, a Sublime Porta compromete-se a realizar, sem mais demora, os melhoramentos e as reformas exigidos pelas necessidades locais na províncias habitadas pelos armênios, e a garantir sua segurança contra os circassianos e curdos".

Trazendo um estado aos armênios, nem de independência ou autonomia, de satisfações limitadas. Mesmo assim, receberam com alegria a perspectiva; que duraria muito.

Na visão do Governo Inglês (dirigido por Disraeli), a supremacia dos Turcos sobre os Estreitos e o Oriente Médio era imprescindível para a manutenção de uma certa ordem nessas regiões, sem ameaçar as comunicações inglesas. Desta forma, Disraeli tenta persuadir os russos a alterar as cláusulas de Santo Estéfano, em sua visão poderiam provocar a derrocada da Turquia. Os russos renunciam ao tratado e aceitam reunir-se em Berlim, a fim de elaborar um novo tratado. Durante as conferências, o ministro inglês consegue restituir a região de Bayarzid à Turquia. Numa conferência secreta, os ingleses prometem aos turcos a evacuação dos russos sobre seus territórios, antes da realização das reformas que diziam respeito aos armênios.

A Convenção de Chipre em 4 de junho de 1878, tinha o objetivo de concretizar a promessa inglesa aos turcos, recebendo em troca a ilha. Propiciando o sofrimento de centenas de milhares de armênios junto aos 20 anos de dominação britânica da ilha.

Em 13 de julho de 1878 é assinado o Tratado de Berlim e o artigo 16 do Santo Estéfano substituído pelo 61: "A Sublime Porta compromete-se a realizar, sem mais demora, os melhoramentos e as reformas exigidas pelas necessidades locais das províncias habitadas pelos armênios e o garantir sua segurança contra os circassianos e curdos. Ela dará conhecimento periodicamente das medidas tomadas comesse fito às potências que fiscalizarão a aplicação dessas".

Com o novo artigo, as reformas já não estavam atreladas à evacuação das tropas russas; tão pouco submetidas apenas ao controle russo, mas ao conjunto das grandes potências, como o desacordo imperava sobre elas, a ineficiência das reformas era eminente e até previstas por ingleses e turcos. Com isso, havia toda uma situação "amarrada", apesar dos armênios serem maioria, principalmente no Much, Van e Erzerum, os turcos brecam as reformas que estariam, segundo eles e os ingleses, comprometendo sua soberania. Ou seja, a marca do Tratado de Berlim é sem dúvida a ineficácia.

A "questão Armênia" agora não está mais circunscrita a uma política interna turca, pelo contrário, ganha a dimensão de uma questão internacional.

Na perda da Bulgária e Bósnia pela Turquia, no Tratado de Berlim, transformou-se a Armênia para o Abdul Hamid (o "Sultão Vermelho"), numa segunda Bulgária, que teria de ser eliminada. Ficando então, muito longe de cumprir as reformas, mostrou-se extremamente arredio aos armênios. As potências não garantiram a soberania armênia. Disraeli foi substituído por Gladstone à frente do governo inglês e, sempre demonstrou simpatia para com os armênios; porém não se mexeu. Agora a Alemanha de Bismarck e a Rússia, estão indignadas com a postura e a ingratidão da Bulgária - que posiciona-se como protetora da Turquia. Os franceses, sem olhos para o Oriente, constroem seu império.

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